Apokalypsis

Poucas palavras despertam tanto fascínio e inquietação quanto apocalipse. Basta pronunciá-la para que surjam imagens de guerras, cidades destruídas, epidemias, catástrofes naturais ou do fim da civilização. Ao longo dos séculos, ela se tornou praticamente sinônimo de destruição. Curiosamente, essa nunca foi sua acepção original. A palavra deriva do grego apokalypsis e significa simplesmente revelação. Significa retirar o véu. Tornar visível aquilo que permanecia oculto.
A destruição não era o centro da ideia; era apenas o instante em que verdades antes escondidas se tornavam impossíveis de ignorar. Talvez tenha sido justamente aí que nasceu o equívoco. As grandes revelações raramente são confortáveis. Quando um véu cai, dificilmente encontramos um mundo melhor do que imaginávamos. Encontramos um mundo mais complexo, mais contraditório e, muitas vezes, mais desconfortável. Ainda assim, enxergar continua sendo melhor do que permanecer iludido. Ao longo da história, quase toda geração acreditou viver tempos apocalípticos.
Houve quem enxergasse o fim do mundo nas guerras, nas epidemias, na ameaça nuclear, nas pandemias ou nas mudanças climáticas. Hoje, muitos o veem na inteligência artificial, outros na erosão das democracias, na polarização política ou na crescente instabilidade internacional. Talvez, porém, estejamos olhando para o lugar errado. Sempre imaginamos o apocalipse como um acontecimento futuro, um instante em que tudo termina. Talvez ele seja outra coisa. Talvez não marque o fim do mundo, mas o fim das ilusões com que aprendemos a enxergá-lo.
Durante décadas acreditamos que mais informação produziria mais conhecimento, que mais comunicação produziria mais compreensão e que a tecnologia aproximaria pessoas e culturas. Imaginamos que sociedades mais educadas e mais conectadas seriam também mais tolerantes. A realidade revelou-se mais complexa. Vivemos na época em que a humanidade mais se comunica e, paradoxalmente, talvez na época em que menos se escuta. As pessoas falam sem parar, mas quase sempre para quem já concorda com elas. As redes sociais multiplicaram as vozes, mas também multiplicaram as muralhas invisíveis.